Entretanto, por toda a turma, e num tom de gozo, foi-se espalhando que a Sofia tinha umas perguntas para fazer na aula de Filosofia, e todos fizeram comentários depreciativos.
A Sofia era uma aluna problemática. O seu percurso escolar começou a deteriorar-se no terceiro ano. Até aí foi uma aluna normal. Frequentou os três anos do pré-escolar, num jardim-de-infância público, e desenvolveu-se muito nesses anos. Quando entrou para o primeiro ano, segundo a mãe, era uma menina-prodígio, pois já sabia todas as letras, os números, escrevia o seu nome, diferenciava os conjuntos e os tamanhos. Encontrava-se claramente acima da média dos outros meninos.
E em que estava ela a pensar? Na sua triste sina. No único dia que vem com vontade para a escola — sim, porque desde que mudou para o secundário e teve que mudar de escola, nunca havia vindo com boa disposição, — neste único dia, que parecia ser o melhor do ano, começa logo por descobrir que afinal a sua melhor amiga, não é assim tão amiga.
E aquela vontade de tudo mudar, aquela excitação e ansiedade, esbatem-se e a sua atenção volta-se de novo para o exterior da sala de aula. Volta-se para os que faltam às aulas, para os que estão sempre bem, para os que não querem saber de nada, para os que têm outras formas de ocupar o tempo, sem ser a estudar…
Aos poucos começou a sentir que talvez todo o seu trabalho tenha sido em vão. A aula de Filosofia ainda não havia começado e já a vontade de apresentar as suas dúvidas ao grande Professor começava a esvaecer-se. Começou a ver que afinal os outros haviam criado uma imagem dela que só a depreciava.
Ficou alguns minutos muito pensativa. Por sorte, o Professor esteve sempre ocupado e nem percebeu. A Marlene notou isso mas não quis interromper o seu trabalho, que lhe estava a correr bem. Viu-a durante muito tempo com os olhos postos na janela, sem saber em que estaria ela a pensar.